sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Cruising

Fiquei em um navio. Um senhor navio. A primeira coisa que eu pensei foi: "então é assim o paraíso? É essa a sensação de vencer na vida?". Não sei responder, mas sei que a sensação de realizar um sonho de vida é uma sensação única.
Estou no céu? Ainda não, faltam algumas pessoas pro lugar ficar completo, mas com certeza a sensação de zerar a vida é indescritível. Intensa como eu sou estou tentando achar palavras. Não consigo. Só sei sentir. Mas eu não estou sozinha nessa. Tenho uma amiga, uma parceira. Alguém doida o bastante pra entrar nessa. Vanessa é dessas amigas que topam suas loucuras sem perguntar muito o que é. Essas são as melhores, essas tem as histórias mais loucas pra contar. Três noites e quatro dias intensos, como só uma amizade pura sabe ser. Vida de patroa, amiga de loucura, mas acima de tudo: parceira pra vida.
Não sei se ela tem dimensão do que me ajudou, do quanto eu estou feliz, mas sei que ela viu meu sorriso aberto, meu olhar brilhante. Criança com seu brinquedo, eu no navio com minha amiga. Se faltou alguma coisa é plenamente perdoável. Se a vida ficar uma linha reta então será a morte, mas isso ninguém quer não é?

Que venham mais navios, mais cruzeiros, mais loucuras. Posso viver assim fácil, porque é na minha loucura que acho minha sanidade.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Travestir-se para vestir-se com definições

Tenho a sensação de que as pessoas gostam de escravizar conceitos e palavras e quando você não concorda pronto: "Reaça", "preconceituoso" e por aí vai. Pensando nisso levei quase um ano pesquisando e pensando em como eu escrever esse texto, bem cima do dia da visibilidade trans. Não, não sou um trans homem mas sim, sou UM travesti (eu sei, terceira guerra mundial está declarada). Antes de me jogarem em um caixão e me trancarem lá para sempre acompanhem a minha linha de raciocínio.
A palavra travesti é francesa e em sua origem define "uma pessoa que veste-se com roupas do sexo oposto". A grosso modo: mulher que se vestem de homem e homem que se veste de mulher, sem entrar no mérito de identidade de gênero ou orientação sexual. Então um homem no carnaval fantasiado de fada é uma travesti ou uma mulher fantasiada de lampião é um travesti? Sim. Isso entendido vamos relacionar travestilidade com afetividade.
Nos anos 50 a revista manchete procurava um termo para definir homossexuais que curtiam o carnaval em guetos e daí surgiu o empréstimo da palavra travesti para definir de uma forma maldosa e pejorativa todos os homossexuais. Não sei a partir de que momento foi, mas os então GLS pegaram para si e acorrentaram a palavra, não permitindo que qualquer pessoa que não fosse um homem "travestido" de mulher fosse designado de travesti e decidiu que todas as mulheres que também se encaixam na definição de travesti eram trans homens.
Como jornalista sou escrava as palavras, não sua capataz nem sua dona, por isso aproprio-me sim da palavra travesti para definir a mim mesma. Radicalismo? Acho que não, já que não me identifico na categoria trans. Sim, eu sei que muitas travestis vão me xingar ou me chamar de desinformada, mas acho que essa é uma reação no mínimo incoerente com um discurso tão liberal que elas pregam. Não sejam radicais por conveniência, apenas aceitem que há a possibilidade de existirem os travestis.
Pronto, podem me crucificar.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Todo mundo tem pai...

Como se forma um bom Babá? O que faz alguém para ser considerado bom? "Só Deus é bom" disse Jesus, mas e os íntegros e retos, como chamá-los? Eu chamo de pai. Ser íntegro não é não errar, ser reto não é andar naquela direção e só naquela. Perfeição demais me agita os instintos... 
Vi meu pai ontem ser o mais humano entre todos, vi meu pai despindo-se da condição de chefe para estar na condição de homem, que chora, que se revolta, que faz traquinagens, que erra, mas que acima de tudo é integro e reto porque não foge da sua essência e é HOMEM o bastante pra encarar de frente, dizer que errou sim porque afinal ele é humano.
Por muito tempo eu falei que há certos erros que um Babá não pode cometer, mas afinal quem sou eu pra dizer isso? Quem me instituiu juiz e executor de Babá? Dia-a-dia construo meu segredo lentamente, com aprendizados, pedras e tropeços.
Se eu estou de volta? Não, acho que não, estou apenas cumprindo meu dever, fazendo aquilo que é obrigatório: a caridade é o lema e bandeira do Pai. Devo obediência ao meu pai e à cúpula espiritual da casa, o que eles falarem, tá falado. Não que eu seja uma filha calma, não sou nem quero ser, mas sei domar o furacão que tem em mim quando se faz necessário. Todo mundo tem pai, mas pai bom é o meu. É, acho que tive a quem puxar...
Mas por favor, pai: não me mate do coração, não tenho saúde pra enfartar agora, tá? Te amo, meu melhor axé, meu melhor saravá.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Nenhuma forma de trauma sobrevive

Não, não sobrevive mesmo. Gosto de jogar bola, sempre fui fã de esportes e adoro praticar alguma coisa além de atletismo de alcova e levantamento de copo.
Passei 2014 quase sem jogar meu (sim, sou pretensiosa) delicioso futebol americano, gosto de jogar na praia e não estava à vontade pra vestir um monte de equipamento e jogar fullpad, mas também não queria largar o esporte. Pronto, estava feita a confusão. Mas afinal para que servem os companheiros de time? Aonde estou? No Vasco, o famoso time de lindas.
Meus domingos são delas, mesmo cansada, mesmo só querendo cama... tá na hora de provar que eu sou sim pretensiosa. Duvidem de mim, eu gosto disso. É mais gostoso levantar uma taça assim.

sábado, 17 de janeiro de 2015

A Dona da Noite II - Banhada no Dendê Fervendo

BRAVA, BRAVA, BRAVÍSSIMA!!!

Ela nem sequer olhou pra mim... seu semblante não era bom presságio. Ela acabara de virar no Dendê fervendo e se mostrava plena. O Anjo da Música não admite erros, não falha. Pronta pra enfrentar o mundo, ela percebe que ali no canto, quieta (e porque não assustada) estava eu, fazendo o que sei de melhor. Ouvir e admirar. Com a mesma facilidade que virou ela desvirou; ah, agora sim era a Kyka que eu conheço, Anjo da Música. Não precisa se explicar, você é você.
Quando eu escrevi o DONA DA NOITE I não passou pela minha mente que um dia teria uma segunda chance, mas como nada nessa vida é planejado novamente me vi de frente sem defesas e confortavelmente vulnerável. Se na primeira vez ela foi "sublime, serena e Linda Morena" agora ela - sem uma palavra - mostrou porque merece a tatuagem que ganhou. Uma fã respondeu por ela: "você é linda, gostosa, pode fazer o que quiser, a gente espera". Sim, Anjo, nós esperamos.

Empolgada, o Anjo repetiu a frase que deu início a tudo: "ah foda-se, vou tocar o que eu quiser!!!"

O que eu digo sobre isso? O mesmo que disse anos atrás: não se preocupe, você sabe o poder que tem, você faz mixagens, não é uma pessoa qualquer. Silenciosamente abandono minhas poucas defesas depois que a noite chega. O que eu ganho com isso? A risada solta e o carinho de sempre.
"Longa vida e belas músicas, porque sempre teremos um Anjo da Música, para nos salvar do lixo musical."

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Malandro é malandro

Pegando carona em posts sobre a lapa e seus assaltos, lembro da revitalização da lapa e me parece que o tempo voou... a boemia carioca já foi mais romântica, os malandros já foram embora... sobrou muito espertinho e pouco inteligente.

Foi-se o tempo que malandro sabia respeitar mulher, que sabia conversar e dividir uma cerveja, que sabia fumar no lugar e na hora certa... hoje os bêbados e os crackudos só querem encher a cara em nome de uma falsa diversão... e eu não estou falando da década de 20, estou falando do ano de 2000, início da revitalização da boemia carioca.

Quem não bebeu uma com Bezerra da Silva e não riu com as piadas de sogra do Dicró não é malandro e não tem chapéu de aba e camisa listrada que te salve. Eram tempos que se dava boa noite, se oferecia um cigarro a um camarada e uma flor a uma dama, mesmo ela não sendo tão dama assim.

Gente ruim sempre existiu, mas aonde estão os bons? Não eram pra ser a maioria?

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Perto das Estrelas

Confesso: sou saudosista sim. Talvez por ser mulher de 30 e ver que tudo está passando muito rápido. Hoje estava ouvindo uma rádio católica que não ouço desde os 20 anos... Qual não foi minha gratíssima surpresa ao dar de ouvido com a voz mais doce e suave que eu conheço: Ghislaine Cantini, uma cantora que cresci ouvindo, que junto ao Padre Zezinho me ensinaram muito e me ajudaram na formação que hoje eu tenho. Se não professo mais a fé católica, ainda sei que daqui do meu lugar sou olhada por Ele...

Lembro-me de em toda minha formação religiosa ouvir o suave cantar do Anjo de  Niterói... Se eu amadureci, se virei um Tijolinho de Pai Cipriano eu não sei dizer até hoje e não sei se saberei um dia, mas sei ser grata àqueles que me ajudaram mesmo que sequer me conheçam. Minha mãe encontrou com Padre Zezinho dia desses. Quase morri de vontade de me teleportar pra lá. Se é utopia não sei, mas que é um sonho é.

Quando vou rezar aos Orixás e estou cansada de um dia de batalha sempre me lembro: me afastei da fé católica, não dos meus ídolos. Ainda gosto da Ghislaine, ainda vou dormir ao som do Doce Anjo Niteroiense e ensino meus sobrinhos o cancioneiro dela. Sou uma saudosista sim, talvez por ser mulher de 30. Vou ali enxugar minha lágrima, já volto.